
Mathilde, Anaïs Nin.




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Ai… é o único som que consigo emitir hoje. Tudo dói. Dói até abrir os olhos, mas eles precisam permanecer bem abertos. Dói falar, dói qualquer movimento do corpo, mesmo quando estou só me acomodando na cadeira de couro preto. Dói olhar para esta mesa de trabalho neste sábado de manhã, e ler na agenda o listão de coisas que preparei ontem para fazer hoje, sendo que hoje dói simplesmente segurar uma caneta.
Dói pra caralho lembrar daquele corno do Maslow e de sua Teoria da Motivação e a Pirâmide coloridinha, onde a base fala sobre necessidades fisiológicas, que acredito que vale não só pra vida executiva. Sem as necessidades básicas atendidas não conseguidos fazer nada. E a minha necessidade neste momento é dormir em paz.. dói pensar na minha cama.
Cada piscada de olhos – vagarosamente, claro. Lembro do bar, do blues, do gordinho tocando aquela gaita irlandesa (dói entrar no pai google para pesquisar o nome, dói até tentar lembrar o nome), lembro de todas as coisas esquisitas e antigas que tinham lá. Do ursinho marrom, da luminária de bronze imoral, da máquina de costura preta, semelhante a uma que vovó tinha quando eu era pequena... só não lembro da quantidade de álcool ingerida, nem dos tecos. Foi o bar mais esquisito que entrei na vida, algum pedaço meu ficou lá pelo meio de tantas quinquilharias e coisas antigas.
Ressaca é algo que dói.




"Não quero mudar você nem mostrar novos mundos pois eu, meu amor, acho graça até mesmo em clichês. Adoro esse olhar blasé que não só já viu quase tudo mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.
Só proponho alimentar seu tédio. Para tanto, exponho a minha admiração. Você em troca cede o seu olhar sem sonhos à minha contemplação: Adoro, sei lá por que, esse olhar meio escudo que em vez de meu álcool forte pede água Perrier."
Antonio Cícero














Sobre o terminar..
Isso não sai da minha cabeça, e pela primeira vez não é motivado por qualquer impulso relacionado a estresse ou paixões platônicas que invento.
Sete anos e pouco. Terminar.. pois não existe mais brilho, não existem mais beijos, o sexo é meramente para suprir necessidades, não existe mais paixão – paixão move o mundo. Terminar.. porque o que restou foi o companheirismo, a amizade e a compreensão de quase uma década. Nos olhares sabemos o que um está pensando sobre a situação, mas ninguém consegue falar. No fundo me pergunto se isso acontece com todo mundo depois de um tempo, mas não conheço absolutamente ninguém, com a realidade como a nossa.
Antes nos víamos com mais freqüência, dificilmente demorava mais de 2 dias. Hoje leva mais de uma semana e nos encontramos para eventos sociais e para aquela questão das necessidades. Desenvolvemos um outro lado nosso, quando juntos as conversas são brandas, sobre dia a dia, quando estamos com amigos falamos coisas que um se surpreende com o outro.
Sinto que já está na hora de desvincular. Ele está com nova vida, faculdade, logo, logo começa a trabalhar, enfim está começando a despertar para o mundo adulto e eu? Rs daqui a 3 anos estou com 30, já não tenho gás para esperar, por comodismo, costume, quero paixão, quero loucura, vida.
Eu realmente o amo muito, queria terminar e continuar como sua melhor amiga, mas ele não é evoluído o bastante, não entenderia. Acho que amamos alguém quando conseguimos entender o que é liberdade, deixar livre. Sem drama, sem teatro, sem forçar, sem insistir, sem sofrer..
Fico a me perguntar quando eu deixei de estar presente durante todos esses anos e lembro que começou quando passei a desacreditar quando vi que meu amor era desacreditado, quando fui tratada como objeto, por vaidade dele, enquanto ele estava com outra. Ali sofri como nunca tinha sofrido na vida, mas o amava e ele foi livre em todas as suas escolhas de idas e voltas. Mas ali, entendi que tinha que ser fiel aos meus sentimentos, e fui, e por isso deixei de estar presente com toda a minha alma pelo menos nos últimos 2, 3 anos. Não sei, não sei, eu estou prestes a explodir porque hoje meus amigos são os amigos dele, e nas raras vezes que encontro meus amigos não consigo conversar. Conversar com outras pessoas fico parecendo coitada, naqueles papos de malandro que diz que não está dando certo com a esposa só pra comer a vizinha – a ouvinte e o ombro amigo rs.
Mas realmente não agüento, e sinto meu peito apertado por isso.. terminar se faz necessário, mas eu não sei como fazer. Sete anos não são sete meses.


Ela se foi.. o corpo cansado não quis mais responder, ela não agüentava mais, achou melhor ir, desistir dessa vida.
Apenas 2 transbordavam sofrimento, mas era possível sentir que era mais pelo medo da solidão e pela palavra ou pelo abraço que deixou de acontecer do que por sua partida.

s.Estava confortavelmente sentada no banco da frente, o carro - um jeep escuro, o motorista - um conhecido, desconhecido.. risadas ecoavam vindo do banco de trás - seriam amigos? de quem?
Perdi a hora, mais uma vez, como sempre, relógios são melancólicos se arrastam por uma superfície lisa, milhares de coisas acontecem em segundos, fatos que transformam vidas, um segundo para frente é futuro, para trás passado,e agora presente.. opa, já foi passado e o que eu fiz.. o que fiz de novo.. ou deixei de fazer. relógios nunca me atraíram..